• 02
  • Daniel Barreiro
  • 04
  • 05
  • 06
  • 07
  • André Campos
  • Carlos Menezes

Música eletroacústica

Daniel Luís Barreiro

(Este texto foi elaborado com o objetivo de apresentar, de forma concisa, algumas informações de caráter introdutório sobre a música eletroacústica.)

Apesar da proximidade terminológica, não se deve confundir "música eletroacústica" com a música usualmente praticada pelos DJs, a qual se convencionou chamar de "música eletrônica".

A história da música eletroacústica remonta à Musique concrète francesa e à elektronische Musik alemã, surgidas no final da década de 1940. As origens da Musique concrète francesa correspondem ao trabalho pioneiro de Pierre Schaeffer e de diversos outros compositores, como Pierre Henry, Bernard Parmegiani e François Bayle, por exemplo. Em suas origens, a elektronische Musik alemã vincula-se aos nomes de Herbert Eimert e Werner Meyer-Eppler, fundadores do estúdio de Colônia, e de compositores como Karlheinz Stockhausen, dentre outros.

Atualmente, a música eletroacústica é praticada em diversos países. No Brasil, são inúmeros os compositores que fazem música eletroacústica, os quais muitas vezes estudam ou atuam em instituições de ensino superior. Tanto no Brasil quanto no exterior, existem festivais e concursos de composição dedicados exclusivamente à música eletroacústica.

As obras eletroacústicas são compostas a partir de sons gravados e/ou sintetizados. Após serem gravados, os sons são transformados no computador e combinados musicalmente para constituir a obra. Diferente da música instrumental (composta para instrumentos) - em que o compositor escreve uma partitura que é posteriormente interpretada pelos músicos no palco - a música eletroacústica é composta em estúdio (normalmente, com o auxílio do computador) e gravada em algum tipo de suporte (CD, DVD-Audio, ou mesmo no HD do computador). Chamamos esse tipo de música de "música eletroacústica pura" (ou acusmática).

Num concerto de música eletroacústica pura (ou acusmática) não há músicos no palco. Durante o concerto, o obra musical é reproduzida por um conjunto de alto-falantes posicionados ao redor do público. Uma pessoa (geralmente o próprio compositor) controla uma mesa de som posicionada no centro da sala, direcionando os sons para os diferentes alto-falantes e, com isso, articulando (moldando) o espaço com os sons. Assim, há uma mobilidade dos sons ao redor da platéia, criando um efeito surround muito interessante. A essa tarefa de controlar a distribuição e a movimentação dos sons no espaço por meio dos vários alto-falantes, damos o nome de difusão sonora (ou difusão eletroacústica, ou ainda espacialização). Os ouvintes geralmente sentem que estão "mergulhados" em sons.

A ausência de músicos tocando instrumentos no palco institui uma situação de escuta em que a atenção costuma voltar-se exclusivamente aos sons - e não aos estímulos visuais. Trata-se, assim, de uma situação de escuta acusmática - termo que remete a Pitágoras, pois conta-se que, ao ensinar seus discípulos, ele se escondia atrás de uma cortina ou de um pilar para que os discípulos se concentrassem exclusivamente nos ensinamentos que escutavam.

Uma outra diferença em relação à música instrumental é que o compositor de música eletroacústica pode criar sons que dificilmente conseguiria obter com instrumentos musicais tradicionais. O compositor molda os sons, alterando as suas características, desde os aspectos mais ínfimos até os mais perceptíveis, buscando a musicalidade inerente a esses sons. Uma analogia interessante, embora talvez pouco precisa, seria pensar no compositor eletroacústico como um "escultor" de sons. O leque de sonoridades em uma obra eletroacústica é bastante amplo - o que responde a um anseio da música dos séculos XX e XXI de exploração de novos universos sonoros. Os sons são "esculpidos" não apenas em suas características espectrais e no comportamento que apresentam ao longo do tempo, mas também no próprio espaço da sala de concerto - por meio da difusão sonora.

Além do gênero acusmático (música eletroacústica pura), há também a música eletroacústica mista, que segue as características descritas acima, embora também inclua instrumentos que são tocados ao vivo por músicos no palco. Ou seja, a música eletroacústica mista combina instrumentos ao vivo com sons eletroacústicos. Esses sons eletroacústicos podem até não estar gravados num CD, mas serem gerados pelo computador em tempo real durante o concerto (nesse caso, chamamos a parte eletroacústica de "eletrônica em tempo real" ou live-electronics).